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Muito além de uma celebração passageira

Por Aécio Neves 

É uma festa bonita de ver. De Norte ao Sul do país, nas ruas e praças das grandes capitais ou no interior, os brasileiros se entregam ao carnaval com uma paixão contagiante. Não importa se vestido como um rei para desfilar na avenida ou coberto de roupas velhas e muita purpurina em um bloco no fundo do quintal, o folião brasileiro é a imagem da alegria que encanta turistas do mundo todo. A maior e mais democrática festa popular do país, no entanto, vai muito além da celebração passageira que se esvai na quarta-feira de cinzas. Falar de Carnaval é falar de inclusão.

Nos últimos anos, em especial, cidades que eram muito esvaziadas pela população local nesse período do ano, como Belo Horizonte e São Paulo, estão construindo uma realidade totalmente diversa, com o carnaval ganhando um protagonismo inédito. São centenas de blocos e milhões de pessoas nas ruas. O notável nesse fenômeno é que ele é basicamente movido pela organização popular, especialmente dos jovens. São eles que estão moldando esse novo experimento urbano e, ouso dizer, também político.

A força do carnaval de rua vem do trabalho voluntário. Os batuqueiros compram seus próprios instrumentos, cada participante escolhe sua fantasia, os ensaios são realizados em praças ou em locais alugados via financiamento coletivo, os regentes de baterias ensinam gratuitamente, os repertórios são decididos em conjunto e as redes sociais são usadas intensamente para mobilizar e organizar os encontros. Ao contrário das escolas de samba, onde vigora um planejamento rigoroso e uma hierarquia de comando sem a qual nada funciona, os blocos de rua são realizações ricas em espontaneidade, espírito de grupo e voluntarismo.

O resultado é uma explosão de diversidade –cultural, racial, sexual e social. Todas as tribos cabem nos blocos. Negros e brancos, heteros e LGBTs, idosos, jovens e crianças, moradores de periferia e da zona sul, profissionais do sexo e religiosos de várias crenças, ricos e pobres, a rua é de todos. Lado a lado, em convivência harmoniosa, cantando as mesmas marchinhas durante horas. Bem distante do estereótipo de alienação que já acompanhou a folia momesca, o que temos aqui é uma verdadeira aula de cidadania e de inclusão social.

É nos jovens que enxergo o desejo de se apropriar do espaço público com bom humor e consciência crítica. Nos últimos anos, eles vieram para as ruas protestar e de lá não saíram. Muitos dos blocos de hoje estão cheios de irreverência e de ativismo.

A juventude, lá e cá, veio para ficar. São vozes que precisamos ouvir e que certamente continuarão ecoando, mesmo depois de guardados os tamborins, as cuícas e os restos de fantasia.

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