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Imperialismo botocudo

Ney Vilela

O Itamaraty tem uma belíssima história: o Barão do Rio Branco, em memoráveis jornadas de defesa dos nossos interesses territoriais, garantiu nossa soberania sobre territórios da Amazônia, Pantanal e região da Foz do Iguaçu; Oswaldo Aranha, gigante na estatura e na oratória, nos deu o privilégio de abrir todas as Assembleias Gerais da ONU; mesmo o nanico Silveirinha, na época de Geisel, conseguiu fazer com que o Brasil fosse o único país do planeta a estar presente na cerimônia de declaração de Independência de Angola.

Todas essas glórias e exemplos não foram suficientes para conter as ações desastradas da dupla Celso Amorim (nosso Kerensky, sem os dons de oratória) e Marco Aurélio Garcia (uma espécie de von Ribbentrop vermelho).

Os erros do Itamaraty, nos últimos anos, se multiplicaram: se Hugo Chávez não foi derrubado pelos trabalhadores da PEDEVESA, transformando-se no arauto do clepto-socialismo, é porque a dupla Amorim/Garcia, sempre alegando moderação, espírito de diálogo e contemporização, deu-lhe alguns milhões de barris de combustível.

Entre os operários e o tiranete, o Itamaraty escolheu o tiranete. Se Cuba comunista sobrevive até hoje, isto se deve ao colossal apoio político, diplomático e econômico do Brasil.

Entre a democracia e a ditadura, o Itamaraty escolheu a ditadura. Se os governos populistas-indigenistas da Bolívia e Equador estão realizando as atuais arbitrariedades, contribuindo para a autodemolição social, política e moral de ambos os países, devem isso ao Brasil, que lhes proporcionou decisivo respaldo em matéria política e econômica. Entre a convivência civilizada e o confronto racial e de classe, o Itamaraty escolheu o confronto.

Nesse momento, o Itamaraty deliberadamente opta pela ingerência nos assuntos internos de Honduras, o que pode arrastar o pobre país a uma guerra civil. Numa ação concertada com Hugo Chávez e Daniel Ortega, criou meios para a entrada de Manuel Zelaya no país, violando a Constituição do Brasil, a Constituição de Honduras e a Carta da OEA.

Nossas embaixadas podem (e devem) servir de refúgio a cidadãos ameaçados em decorrência de disputas políticas, mas o que se vê, em Honduras, é coisa bem diferente: ao chamado governo de fato de Honduras, Amorim e Lula querem impor a volta de fato de Zelaya. O problema é que o ex-presidente foi deposto por hondurenhos, mas quem quer reinstalá-lo à força no poder é o governo do Brasil.

O Brasil mergulha de cabeça na política interna de outro país sem ouvir nem mesmo seus parceiros em entidades multilaterais — ONU, OEA ou a patética Unasul. Nosso país, por irresponsabilidade do Itamaraty, está insuflando uma guerra civil. Já sabemos que o avião, que conduziu Zelaya a Honduras, é venezuelano (alguma surpresa”) e partiu da Nicarágua. Zelaya, mentiroso compulsivo, disse ter chegado à embaixada brasileira no porta-malas de um carro! Mas ele chegou com 60 pessoas. No mesmo porta-malas”

O Brasil não reconhece o governo de Honduras. Muito bem. É parte do jogo e do concerto das nações. Este não-reconhecimento tem graus e vai da suspensão de qualquer cooperação até o fechamento da embaixada, com a retirada de todo o corpo diplomático. Mas aquilo a que se assiste em Tegucigalpa é outra coisa: o Itamaraty, numa ação concertada com Hugo Chávez e Daniel Ortega, criou meios para a entrada de Manuel Zelaya no país, violando a Constituição do Brasil, a Constituição de Honduras e a Carta da OEA. Mas Celso Amorim achou pouco: permitiu que Manuel Zelaya usasse as dependências da embaixada para convocar os seus seguidores para a resistência.

Embora fale em nome da paz, o apelo de Zelaya não descarta a guerra civil: Pátria, restituição ou morte. Lula e Amorim usam a pobre Honduras de forma miserável para exibir seus músculos (santo Deus!) e esperam que os hondurenhos tenham o juízo que eles não têm.

O Brasil, nesse momento, pratica imperialismo. As justificativas de defesa da democracia hondurenha não se sustentam em pé: nenhum país tem o direito de oferecer a sua própria embaixada como trampolim para que algum grupo político, do país em que a embaixada está localizada, tome o poder.

Para se entender o que estou falando, basta imaginar a seguinte situação: a embaixada brasileira em Havana abrigaria alguma liderança democrática que estivesse questionando o governo ditatorial da família Castro”

Lula da Silva, Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia estão parindo o imperialismo botocudo: acham que irão levar a opinião pública internacional na conversa, no beiço.

Cometeram um erro grave e pagarão por ele. O triste é que, com essa irresponsabilidade, irão arranhar uma tradição de competência e paz, construída pelo Itamaraty em 150 anos de suor e trabalho.

*Professor de História Contemporânea da USC e Coordenador Regional do Instituto Teotônio Vilela

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