Folha de S. Paulo – Gilberto Dimenstein
Nos últimos oito meses, ocorreu apenas um assassinato na Cidade de Deus, a região cuja violência foi projetada mundialmente por causa do magnífico filme de Fernando Meirelles. Mesmo este único assassinato não está ligado ao tráfico, mas a uma desavença familiar. Qual o santo por trás desse milagre” Temos aqui uma das mais interessantes notícias, no Brasil, de 2009.
No ano passado, a polícia decidiu não apenas fazer uma investida na região, mas controlar o território e, assim, conseguiu ganhar certa confiança da população. É um processo semelhante ao que ocorreu em São Paulo, no Jardim Ângela, região tida, há dez anos, como a mais violenta do mundo.
A articulação nessa região fez com que São Paulo ocupasse, segundo indicador do Ministério da Justiça, a condição de capital brasileira mais segura (ou menos insegura, se preferir).
Depois da polícia, vieram ações sociais. Uma delas, implementada pela prefeitura, foi o bairro educador. Uma parte das escolas funciona em tempo integral, com atividades disseminadas pelo bairro criou-se a figura do professor comunitário. A matrícula escolar cresceu, no período, 30%.
Na verdade, nem o santo é santo. Nem o milagre é milagre. Em todos os lugares em que se combinam ações policiais repressivas e preventivas o policiamento comunitário com atividades sociais, criando um senso de pertencimento, o crime cai.
Foi assim no Jardim Ângela, mas também em Bogotá, Medellín, Los Angeles, Boston e Nova York.
Cidade de Deus só mostra que estamos começando a dominar a receita contra a barbárie.


