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Da pandemia à crise: a falta que faz a boa política

Por Marco Vinholi

É em momentos de crise, dizem os historiadores, que os rumos de nações e do mundo mudam. Períodos pós-pandêmicos foram os catalisadores de alterações drásticas na forma como as pessoas encaravam os fatos e impulsionaram mudanças profundas, seja devido à crise econômica que, em maior ou menor grau, acompanha as catástrofes sanitárias, seja pela mudança de estilo de vida que causam.

Todos os dias, estudiosos de diversas áreas opinam sobre tudo que não será como antes quando esta pandemia acabar. O trabalho e a forma de ensinar ganharão novos impulsos com recursos à distância, relações pessoais serão privilegiadas, o sistema de saúde público e universal terá outro peso no planejamento dos governos, entre outras tantas observações.

Mas nenhuma outra mudança no pós-pandemia parece tão essencial e urgente quanto a valorização da política e das boas práticas gerenciais. No Brasil, em especial, a discussão está sendo massacrada pela realidade cotidiana diante da inação e dos absurdos propagados pelo presidente Jair Bolsonaro. Enquanto isso, o país coleciona mortos e vê chegar cada dia mais próxima a catástrofe da falta de atendimento médico.

A pandemia chegou a mais de 200 países sem distinção de continente, padrão cultural ou PIB per capita. Foi democrática na disseminação e na contagem dos mortos. E chegou às Américas disposta a fazer mais vítimas quanto maior o populismo envolvido. Estados Unidos e Brasil, distantes nos recursos e na capacidade de reação, enfim encontraram um vínculo: a incapacidade de seus presidentes de lidar com a realidade e a capacidade de tumultuar iniciativas para salvar vidas.

Os números mostram que a qualidade dos governantes e a forma como enfrentaram a doença foi decisiva para combater a pandemia e seus efeitos sobre as pessoas e sobre a economia. Países bem administrados, como Alemanha e a Nova Zelândia, em que os governantes gozam de prestígio e atuaram de forma clara, saíram da crise sanitária com menos vítimas e de maneira mais célere.

No Brasil, há anos a política tem sido massacrada pelos apelos populistas e de rápida aceitação popular. Os anos de lulopetismo começaram dividindo o país e terminaram nivelando por baixo aliados e adversários na tentativa de salvar o partido no poder.

A Lava-Jato, que marcou uma fase importante no combate à corrupção, desmascarou quadrilhas e deu esperanças de que haveria um forte combate à corrupção no Brasil. Mas se enganou quem pensou que seria o bastante. Na sequência houve a criminalização da política ao aceitar o discurso fácil que colocava todos os políticos no mesmo balaio, confundindo investigação com julgamento. A crise econômica causada pelos anos de desgoverno petista somada a ira de se sentir roubado fez eclodir uma onda “anti-establishment” que culminou na eleição de Jair Bolsonaro e na permanente crise política que vivemos hoje.

Nunca se precisou tanto da política. A boa política, aquela capaz de debater pautas, de procurar convergências, de colocar o país e seu povo à frente da próxima eleição. Nunca foi tão necessário conhecer a política e seus atores, separar o joio do trigo, investir na formação de novas lideranças e apostar na participação efetiva como mecanismo de controle à emersão de líderes despreparados e descompromissados com o bem comum.

Não é mais possível que o brasileiro abra mão de decidir seu futuro, delegando a tarefa ao salvador da pátria de plantão. É preciso conhecer, debater e participar. Porque o vírus da doença mata, mas o da ignorância compromete gerações.

 

Marco Vinholi é presidente do Diretório Estadual do PSDB-SP e secretário estadual de Desenvolvimento Regional