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Educação e a ilha da fantasia petista

Pedro Tobias e Roberto Engler

Enquanto os marqueteiros de plantão tentam dar cara nova ao já experimentado ex-ministro da Educação, Fernando Haddad, a greve dos servidores das universidades federais expõe a todos nós, brasileiros, a realidade da gestão petista frente ao Ministério da Educação.

Fruto do descaso, da falta de planejamento e de uma máquina cada vez mais voltada às demandas eleitorais, o que se vive hoje nessas instituições é a precariedade das instalações, falta de professores, salários desoladores e alunos desmotivados.

Na gestão do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governo federal se vangloriou de criar 14 novas universidades federais e 126 novos campi universitários. A verdade, no entanto, é que os alunos e professores foram jogados em prédios improvisados, sem acomodações adequadas, bibliotecas, laboratórios, em muitos casos com professores insuficientes deixando estudantes de áreas como medicina sem a formação minimamente adequada.

O resultado é o que se vê, por exemplo, na unidade da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) no ABC paulista, onde as taxas de abandono são superiores a 42%.

O problema se tornou tão grave e sua resolução tão distante de ocorrer que professores e alunos de 51 das 59 universidades federais decidiram cruzar os braços há quase um mês.

Estima-se que mais de um milhão de jovens universitários tenham aderido ao movimento em prol de melhores condições de estudo e de trabalho para os docentes. Denúncias feitas pelo Sindicato dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN) comprovam que a sanha petista em criar números para mostrar no horário eleitoral não vem acompanhada da eficiência administrativa necessária para formar profissionais capazes de atender a demanda por trabalho qualificado. Há casos graves, como do campus da UFRJ de Macaé, onde alunos de Medicina não têm professores ou laboratórios nem uma rede de hospitais onde possam fazer aulas práticas, fundamentais para quem vai lidar com a tênue linha entre a vida e a morte.

O curso começou a funcionar em 2009 e até hoje, três anos depois, os problemas ainda não foram sanados. Problemas semelhantes enfrentam os alunos de enfermagem do campus de Cuité, da Universidade Federal de Campina Grande.

Em São Paulo, o campus de Guarulhos da Unifesp funciona, há quase seis anos, em um local onde originariamente seria uma escola técnica. A superlotação das salas fez com que parte dos alunos fosse transferida para outra unidade de ensino, onde dividem o espaço com cerca de 700 crianças. Já em Osasco, a universidade foi instalada provisoriamente na sede de outra faculdade, a FAC-FITO. Nos dois casos, os prefeitos das cidades sede são do PT.

A ampliação de universidades sem o mínimo cuidado com o nível de educação oferecido é um processo que tem tudo para acabar mal. Estudantes mal formados se tornam profissionais deficientes, algo impensável num país que acaba de alcançar o título de sexta economia do mundo e precisa, urgentemente, formar mão de obra qualificada para conseguir avançar.

Ampliar as vagas nas universidades públicas é necessário, mas é preciso manter a qualidade do ensino. Exemplo de que isso é possível acontece em São Paulo, onde as universidades públicas (USP, Unicamp e Unesp) expandiram em 60% o número de vagas de vestibular até 2009 sem deixar de oferecer alguns dos melhores cursos do país. A Universidade de São Paulo foi eleita, inclusive, a melhor da América Latina. Nessas universidades, somente na pós-graduação foram matriculadas 22,8 mil pessoas a mais se comparados os períodos de 1994 e 2009.

No ensino técnico, São Paulo avançou ainda mais: ampliou de oito para 55 o número de Fatecs (Faculdade de Tecnologia de São Paulo) e de 99 para 214 o de Etecs (Escola Técnica Estadual). Apenas em 2011, 63.190 jovens concluíram seus cursos nas Etecs paulistas, onde de cada cinco formados quatro saem praticamente empregados, prova de que é possível ao poder público oferecer ensino de qualidade, gratuitamente, aos jovens brasileiros.

Como na imaginária Ilha da Fantasia, famosa série de televisão dos anos 80, Lula e Haddad esperam entrar no imaginário mundo petista onde todos os sonhos são realizados sem esforço ou competência. Para a grande massa de brasileiros, jovens ávidos por formação de qualidade, no entanto, a receita se transformou num fiasco. Educação é coisa séria e merece mais que anúncios na TV.

Os  autores, Roberto Engler é deputado estadual e professor da USP e da Unesp; Pedro Tobias é médico, deputado estadual e presidente do Diretório Estadual do PSDB-SP