Artigo Ney Vilela*
Os gregos, em seu momento de apogeu cultural, dispunham de um saber de grande alcance especulativo, mas que não conduzia a um significativo poder de transformação das condições de existência. O mundo contemporâneo, ao contrário, possui forte assento técnico, fazendo-se acompanhar de uma surpreendente capacidade de alterar o mundo físico.
A nova ciência leva a um conhecimento anônimo que se afasta do paradigma grego, que era o de buscar, de maneira consciente, solidária e responsável, a melhoria da qualidade da vida humana. O novo saber é depositado nos bancos de dados e usado de acordo com os meios e segundo as decisões das estruturas de poder. Há um verdadeiro desapossamento cognitivo, não só entre os cidadãos, mas também entre os cientistas, pois a especialização máxima lhes retira o domínio sobre o saber produzido.
A pesquisa, por sua vez, é gerenciada por instituições burocráticas. E este conhecimento, sem passar reflexão crítica, transforma-se em regras cegas impostas à sociedade. Husserl, numa conferência sobre a crise da ciência europeia, identificou buraco cego na objetividade científica: a ausência da consciência de si mesmo. A partir do momento em que, de um lado, ocorreu o divórcio da subjetividade humana, reservada à filosofia, e a objetividade do saber, que é própria da ciência, o conhecimento científico desenvolveu as tecnologias mais refinadas para conhecer todos os objetivos possíveis, mas se tornou completamente alheio à subjetividade humana.
Como a ciência não pode se conhecer, não pode praticar a autoanálise com os métodos de que dispõe hoje em dia, ocorre o que Morin denomina “ignorância da ecologia da ação”: toda ação humana, a partir do momento em que iniciada, escapa das mãos de seu iniciador; entram em jogo as múltiplas interações próprias da sociedade, que a desviam de seu objetivo e às vezes lhe dão um destino oposto ao que era buscado inicialmente.
A antiga idéia de natureza acomodava-se numa inatingível ordem cósmica que definia os contornos das normas éticas. Hoje, trabalhamos com uma concepção inteiramente distinta. O curso da existência não é mais dependente de uma lei superior que reserva ao ser humano a condição de espectador; ao contrário, o homem é hoje o agente das transformações. A natureza deve ser considerada como propriedade, domínio do homem. Impossível, diante dessa realidade, não interpor à atitude científica exigências de uma nova responsabilidade ética.
Considera-se responsável, sente-se afetivamente responsável, aquele a quem é confiada a guarda de algo perecível. Diante da possibilidade da morte substituindo a vida, por conta da ação humana, dos perigos que afetam o ecossistema dentro do qual se desenvolvem as atividades humanas, dos efeitos que resultam das manipulações biológicas aplicadas à reprodução humana ou ainda, das possibilidades de intervenção química ou cirúrgica sobre o comportamento do homem, precisamos de uma nova ética.
Não se trata de esboçar essa ética aqui. Mas, no que se refere ao planeta, podemos lembrar que os gregos nos adiantaram uma sugestão: ao se referir ao planeta Terra, eles utilizavam-se do mito de Geia, imaginando-o como um ser vivo. Os seres vivos regem-se pela homeostase, que é a propriedade de um sistema aberto de regular o seu ambiente interno de modo a manter uma condição estável, mediante múltiplos ajustes de equilíbrio dinâmico controlados por mecanismos de regulação interrelacionados.
O progresso técnico não pode por em perigo o equilíbrio físico e biológico que constituem o alicerce vital do planeta. Não podemos assassinar Geia, impedindo-a de realizar sua homeostase. Não se pode liberar o dióxido de carbono que Geia encarcerou em um processo que durou meio bilhão de anos; um ser humano médio não pode consumir mil vezes mais energia do que um elefante, para seguir vivendo. Como diria o poeta: a lição nós sabemos de cor; só nos resta aprender.
*Professor de História Contemporânea, na USC; Coordenador Regional do Instituto Teotônio Vilela; diretor de eventos do ICACESP.


