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O canal do Panamá

Ney Vilela*

A orientação geopolítica norte-americana fundamentou-se nas idéias de Alfred T. Mahan (1840-1914), almirante e professor do Naval War College. As teorias de Mahan fundamentam-se na força naval como determinante para que uma nação consiga construir a hegemonia mundial.

Segundo Mahan, todas as nações que dominaram o planeta construíram seu poder por meio do domínio dos mares. Desde Atenas e hegemonia comercial sobre o Mediterrâneo, passando pela Espanha e sua invencível armada e chegando até a Inglaterra, a rainha dos mares.

Se os EUA queriam se tornar uma grande potência, Mahan propunha o desenvolvimento de uma Marinha forte, com o estabelecimento de bases e apoio logístico direcionados para o domínio do Atlântico e do Pacífico.

Nesse esquema, o Caribe deveria se tornar um lago de Tio Sam, por estar na passagem entre esses dois oceanos. E é óbvio que a construção de um canal, na América Central, ligando os dois oceanos, deveria ser realizada imediatamente, sob comando e jurisdição dos norte-americanos.

O presidente Theodore Roosevelt decidiu, com a proverbial delicadeza de quem formulou a Doutrina do Big Stick, levar a diante a ideia de construir o tal canal.

Roosevelt considerou que o controle estadunidense da passagem do Atlântico ao Pacífico seria de grande importância militar e econômica. O Panamá fazia então parte da Colômbia, de modo que Roosevelt começou as negociações com os colombianos para obter a permissão necessária.

No início de 1903, o Tratado Hay-Herran foi assinado pelos dois países, mas o Senado colombiano não o ratificou.

Roosevelt decidiu, então, conspirar. Deu a entender aos rebeldes panamenhos que, se eles se revoltassem contra a Colômbia, a marinha estadunidense apoiaria a causa de independência panamenha.

O Panamá acabou por proclamar sua independência em 3 de Novembro de 1913, e o U.S.S. Nashville, em águas panamenhas, impediu toda e qualquer interferência colombiana.

Como a Colômbia tentou agir contra os rebeldes, Roosevelt ordenou à Marinha estadunidense estacionar navios de guerra perto da costa panamenha para “exercícios de treinamento”.

Diante da ameaça, os colombianos se conformaram. Os vitoriosos devolveram o favor a Roosevelt: por US$ 10 milhões deram aos Estados Unidos o controle da Zona do canal do Panamá em 23 de Fevereiro de 1904.

Como os EUA são muito bondosos, decidiram ofertar ao Panamá uma renda anual de 250 mil dólares, a partir de 1913.

A construção se iniciou ainda em 1903 e terminou após dez anos. Foram computados, oficialmente, 5.609 mortos durante as obras. O resultado foi uma maravilha tecnológica. A complexa série de eclusas permitia até mesmo a passagem dos maiores navios de sua época.

O canal foi um triunfo estratégico e militar importantíssimo para os Estados Unidos. Por exemplo, usando o canal durante a Segunda Guerra Mundial para revitalizar sua frota devastada no Pacífico.

A Zona do Canal foi administrada pelos Estados Unidos até 1999, quando o controle foi passado ao Panamá. Os novos donos depararam-se com o problema da obsolescência: navios de mais de 60 mil toneladas de deslocamento não passam pelo canal e os maiores cargueiros deslocam 300 mil toneladas.

Além do mais, cada navio paga aproximadamente US$10 mil para ter o direito de atravessar o canal: sai mais barato pagar o frete de um grande navio que circunavega o Estreito de Magalhães, do que atravessar três navios menores pelo Canal do Panamá.

Isso explica o investimento de US$5 bilhões para a ampliação da ligação interoceânica panamenha, que estará pronta daqui quatro anos.

*Professor de História Contemporânea da USC e Coordenador Regional do Instituto Teotônio Vilela

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