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O significado do Haiti

Tania Malinsk

Há uma semana, o mundo acompanha a tragédia provocada por um terremoto no Haiti, um dos estados mais pobres do planeta. Para um país que já vinha sendo palco de ajuda humanitária e de tentativas de reestruturação política por forças de paz das Nações Unidas, o terremoto atingiu sua população quase como um golpe de misericórdia, em um flagelo sem precedentes que a cada fase foi abrindo dolorosos capítulos.

O sentimento que surgiu, em um primeiro momento, foi o de que com a cidade de Porto Príncipe caiu também um pouco da comunidade internacional que vem nas últimas décadas envidando esforços para reerguer o país. A sensação de perda tornou-se geral, como se os investimentos sociais e humanos tivessem sido ceifados, como se toda a coordenação entre as nações até o momento em favor do povo haitiano tivesse sido inútil.

Alguns minutos, e a natureza tratou de fazer da capital do Haiti terra arrasada.

O que antes parecia um interminável purgatório ganhou aspectos de um julgamento final de condenação. Ao mesmo tempo, seja no cenário cinzento do dia, seja na escuridão da noite, pequenos pontos tem se iluminado em relatos e imagens que chegam: o mundo finalmente se uniu em torcida por cada sobrevivente dos escombros, por cada criança resgatada, por cada socorro médico, por cada alimento distribuído, como se disso dependesse nossa própria vida.

E no final das contas isso não deixa de ser verdade. Nossa humanidade, como humanidade, hoje se coloca em jogo. Afinal, foi necessário um terremoto para que nos déssemos conta que um dólar pode fazer muita diferença. Há tempos metade da população do Haiti vivia com menos de um ou dois dólares por dia, e isso já não chocava a ponto de uma reação emergencial. Afinal, tratava-se de um estado falido, simplesmente fazia parte.

Se existe lição possível a se tirar, ela é idêntica para o Haiti e para o mundo. A dor e o desastre têm demonstrado que o povo se une em torno da vida, em torno de algo mais atávico e mais fundamental, mesmo numa nação dividida, mesmo entre interesses nacionais contingentes e conflitantes. Algo é maior.

Nesse sentido a força que brota do Haiti é uma forca capaz de fazer com que Cuba ceda espaço aéreo para os EUA, com que a Republica Dominicana supere rivalidades históricas com o vizinho, com que paises do mundo inteiro se articulem em torno da ajuda humanitária, com que nos emocionemos não importando a nacionalidade da equipe de resgate, não importando a cor da vitima socorrida. Finalmente o cidadão do mundo é capaz de se identificar, em profundidade, com um haitiano.

Nas fraturas expostas da nação haitiana, está aquilo que faz com que ela seja exatamente como qualquer outra nação do mundo. A agonia da dor, a tristeza da morte, o medo da violência, a ira provocada pela privação, a alegria de um resgate, o alívio de um reencontro, são todos sentimentos que nos tornam humanos, e são todos sentimentos que independem de origem.

O sofrimento dos haitianos é o sofrimento de todos nós. Esse substrato emocional primitivo (no sentido de que é o que vem primeiro, do que é prioritário), é ao mesmo tempo o que nos torna indivíduos e aquilo que nos abre comunicação. Aquilo que nos une e nos faz radicalmente iguais. Aquilo que a comunidade internacional hoje comunga e que faz com que um pouco do Haiti esteja espalhado pelo mundo e que todos que acompanhamos os eventos, de uma forma ou de outra, também estejamos abrigando, dentro de nossas esperanças, um pouco do Haiti, na certeza de que se um dia o Haiti for melhor, é também porque o mundo melhorou.

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