Em 2007 ou 2008, então vice- governador de São Paulo e Secretário de Desenvolvimento do Estado recebi dirigentes do Ministério dos Transportes, da ANTT e do BNDES que vinham mostrar os primeiros estudos para a construção do trem de alta velocidade – o trem bala –transporte ferroviário de passageiros entre o Rio de Janeiro, São Paulo e Campinas.
Os estudos ainda eram rudimentares e procuravam alocar a estação na capital paulista,que poderia ser no Campo de Marte, na Luz ou na Barra Funda. Na ocasião argumentei que qualquer um desses sítios eram inadequados, pois se situavam não só fora da zona central da cidade como longe da demanda dos potenciais usuários que seriam, majoritariamente, executivos de empresas, localizados – moradia e local de trabalho – na nossa zona sul, entre a avenida Paulista e a marginal do Rio Pinheiros. Mostrei que não teria sentido, ainda que tivéssemos, futuramente, uma rede de metrô mais extensa, levar as pessoas – uma baixa demanda relativa – a atravessar a cidade num percurso, frequentemente, de duração de mais de uma hora, para acessar um trem que levaria, segundo a previsão, uma hora e meia para percorrer a distância entre São Paulo e o Rio de Janeiro.
Não nos deram ouvidos. A decisão estava tomada. O então presidente Lula levaria o projeto adiante, independentemente de qualquer argumento. Até o final do seu governo, nada aconteceu, só fumaça, promessas e despesas.
Em 2010, quando governador, levantei a questão junto a um grande empresário do setor de construção, interlocutor da então candidata. Dizia-lhe que não acreditava que ela levaria adiante o projeto, na hipótese de sua eleição. Para minha surpresa ele se mostrava convicto do contrário, isto é, ela tudo faria, de forma obsessiva, para concretizar o projeto então orçado em 33 bilhões de reais e previsto, pelos especialistas, em mais de 50 bilhões de reais.
Ele tinha razão. A presidente Dilma não recuou dessa total maluquice, sabe-se lá por quê. Já fez várias tentativas de colocar o projeto em licitação. Já constatou que várias empresas desistiram de participar do certame. Já tentou todas as mandrakarias para viabilizar a obra, desde financiamentos subsidiados do BNDES até a garantia ao concessionário de cobrir a demanda de passageiros. Diante do quadro deprimente de nosso transporte ferroviário, em especial nas regiões metropolitanas, é uma demonstração de insensatez preocupante.
E tudo conspira contra. Um dos grandes exemplos de sucesso dos trens de alta velocidade é o caso da Espanha que acaba de sofrer um trauma terrível com o acidente do descarrilamento de um trem que provocou a morte de dezenas de pessoas. Quanto mais rápido o trem, mais graves os acidentes…
Nada justifica, no quadro atual do transporte de passageiros no país, de curta ou longa distância, essa ideia mirabolante. Construir uma ferrovia, extremamente cara, que levará muitos anos para terminar enquanto carências muito maiores e mais urgentes se colocam diante do administrador público é inaceitável. Insistir nisso é criminoso e devemos agir da forma mais incisiva possível para evitar que essa loucura se concretize.


