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Os juros assassinos

Ney Vilela*

Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, considera que o mecanismo mais eficiente para fazer frente ao aumento da inflação é a elevação da taxa de juros. Sintomaticamente ele se abstém de mencionar que existem duas taxas, com funções muito diferentes. Existe a taxa Selic, taxa básica, definida pelo governo; existe a taxa de juros, cobrada pelos bancos.

A diferença entre as duas taxas é o que chamamos de spread bancário, mas que também podemos chamar de lucro do banqueiro. O spread para a pessoa física, nos últimos meses, gira em torno de 34,5%, enquanto o da pessoa jurídica está perto de 19,5%. Vamos comparar? A China, que está com inflação igual à nossa, elevou, no começo do mês, sua taxa básica para 3,5%, enquanto o das pessoas físicas passou para 6,6%, com um spread de 3,1% ao ano. Ou seja, o nosso spread é onze vezes maior (34,5 dividido por 3,1)!

Quais são os efeitos do aumento da taxa Selic na economia? Em primeiro lugar, amplia o déficit fiscal, pois incide sobre a dívida do governo; além disso, derruba o valor do dólar e atrai o capital especulativo internacional; por último, reduz as exportações e incentiva as importações e gastos com turismo. Se os efeitos são tão desastrosos, por que o Banco Central vive aumentando a taxa Selic?

O Banco Central nos dá uma pista quando consulta o mercado financeiro sobre previsões de inflação e crescimento econômico, reunindo-as no boletim Focus. Parece democrático, mas não é: o mercado financeiro é diretamente beneficiado pelos aumentos dos juros e representa apenas 7% do mercado. O Comitê de Política Monetária (COPOM) do Banco Central define a Selic que, ao ser elevada, multiplica os lucros do sistema financeiro. Esse lucro sai do Tesouro Nacional (único devedor dos títulos vinculados à Selic). Ou seja, o dinheiro é transferido do bolso do contribuinte para o bolso do banqueiro.

Agora vamos observar os efeitos do aumento dos juros bancários (embora eu tenha certeza que você, caro leitor, saiba do que se trata!): reduz o consumo, por influir no valor global a ser pago nas compras; reduz o investimento das empresas, que ficam impossibilitadas de se capitalizar por meio de empréstimos; provoca inadimplência por expandir o valor das prestações a serem pagas; por último (e mais elucidativo!), amplia os lucros do sistema financeiro.

Os juros assassinos estão devorando 5,7% do nosso PIB (quando a média planetária é de 1,8% do PIB) e engolirão R$ 180 bilhões do Tesouro Nacional em 2011, impedindo investimentos governamentais na área social, da segurança pública e em infraestrutura.

A esquerda brasileira (do PT ao PC do B, passando por partidos altamente proletários como o PP do Paulo Maluf…) foi subornada pelos representantes do que há de mais reacionário no sistema capitalista e está afundando o governo, as empresas e os consumidores em despesas, além de agravar a distribuição de renda e de deslocar os valores da economia real e do governo para o sistema financeiro. É hora de arrancá-los do poder!

* Coordenador Regional do Instituto Teotônio Vilela

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