Ao completar os primeiros 100 dias a frente da Prefeitura de São Paulo – o prefeito Fernando Haddad mostra que segue a risca a velha cartilha do PT, conhecida por ser ótima no marketing e ter expertise em ensinar aos seus pupilos todas as artimanhas para se esquivar das responsabilidades que as funções públicas exigem.
Senão vejamos. Logo no primeiro dia útil de seu mandato – em 02 de janeiro – o prefeito Haddad ganhou os jornais ao anunciar pacote com 16 medidas para combater enchentes em São Paulo. Pacote anunciado, as fortes chuvas vieram e com elas as inundações. Haddad tinha acabado de sentar na cadeira de prefeito e não tinha mesmo como resolver em um passe de mágica este problema crônico. Portanto, não se trata de responsabilizá-lo. Porém, o que o paulistano esperava de seu prefeito – logo na primeira dificuldade enfrentada durante sua gestão – era ação e não que ele sumisse logo no primeiro trovão.
Agora, no melhor estilo do vale tudo eleitoral, esquece as promessas feitas durante a campanha e desta vez fala em 100 metas (lembrando que uma meta não é necessariamente um compromisso) para sua administração. Porém, o próprio prefeito admite que as tais 100 metas têm custo estimado em R$ 23 bilhões e que não há como fazer todos investimentos sem o governo federal. É claro que toda ajuda é importante, mas construir os pilares de uma administração com base em recursos que não integram o orçamento municipal é no mínimo irresponsabilidade.
Verdade seja dita, não de hoje Haddad mostra que seu compromisso é mesmo com o marketing, que nem sempre anda de mãos dadas com a realidade. Ainda em sua campanha eleitoral, o Bilhete Único Mensal foi uma das principais propostas do petista. Após sua eleição, vem o discurso que a implantação do sistema deve entrar em operação somente no segundo ano de seu mandato. Se por um lado ele ganha tempo, de concreto mesmo ao paulistano, só o aumento da tarifa do ônibus municipal que virá em junho.
Mas a peripécia de quem se enrola por falar mais do que pode cumprir não pára por aí. Também durante a campanha eleitoral, todos os cidadãos paulistanos foram testemunhas da proposta de Haddad em acabar com a inspeção veicular na cidade de São Paulo. Após eleito, e inevitavelmente, chamado a realidade, Haddad mudou a versão do que tinha dito e passou a falar em devolver o valor da inspeção veicular aos motoristas que tiverem seus veículos aprovados. Como devolver dinheiro? A inspeção na ia acabar? Depois, ao fazer cortesia com o chapéu alheio – prática que nunca sai de moda no PT – quer jogar para os outros a responsabilidade daquilo que prometeu, ao querer que o governo do estado realize a inspeção veicular em toda Grande São Paulo. Ou seja, quem no início queria acabar com a inspeção agora quer não só mantê-la como também ampliá-la. Num oportunismo que parece não haver limites ainda cobra que os outros façam aquilo que – no início – ele prometeu que não faria.
Sobre ampliar a inspeção veicular, tese agora defendida por Haddad, não podemos esquecer que tramita na Assembleia Legislativa de São Paulo projeto de lei, enviado pelo ex-governador José Serra que amplia a inspeção veicular para todo Estado. Com falta de unanimidade sobre o assunto, inclusive pela bancada do PT, a proposta ainda não foi apreciada pela Casa – que faz a sua parte em discutir com responsabilidade uma legislação estadual. É claro que toda Assembleia Legislativa é favorável ao incentivo de políticas que defendam o meio ambiente, mas este debate precisa ser feito com todo cuidado. Respeito o contraditório, mas particularmente sou contra a criação de novas taxas no Estado. Acredito que a questão é mais profunda, com origem educacional.
Voltando a cidade de São Paulo, quero acreditar que o prefeito Haddad, mesmo que tardiamente, ainda esteja perdido por conta das inúmeras e urgentes atribuições que o cargo da maior cidade da América Latina demanda. Que os seus primeiros 100 dias a frente da prefeitura não sejam uma prévia dos quatro anos de seu governo. O paulistano não merece isso. Por isso, assuma aquilo que prometeu, assuma suas responsabilidades pela quais foi eleito, prefeito Haddad! A cidade não pode parar. Parafraseando o ex-presidente americano Abraham Lincoln: “você não consegue escapar da responsabilidade de amanhã esquivando-se dela hoje”.
Cauê Macris,30, é deputado estadual e vice-líder da bancada do PSDB na Assembleia Legislativa de São Paulo