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O novo grão-tucano

O PSDB saiu da convenção de 31 de maio, em Brasília, com a cara de João Doria. Foi ele quem tratorou as antigas lideranças do partido ao eleger o atual presidente, Bruno Araújo. Na condição de novo grão-tucano, Doria defende uma série de mudanças na legenda, que vão do ideário liberal, pró-­mercado, em detrimento da social-­democracia, a uma postura mais firme nos temas nacionais (inclusive na expulsão de membros com denúncias de corrupção). Embora demonstre respeito por seus antigos caciques (“Fernando Henrique Cardoso é um dos maiores talentos que a política brasileira já produziu”, diz), ele afirma que o momento é de renovação. João Doria, 61 anos, recebeu VEJA no Palácio Bandeirantes — logo depois de um encontro com o sertanejo Zezé Di Camargo, com quem combinou um jogo de futebol beneficente — para falar do novo PSDB, de sua relação com Jair Bolsonaro e do próprio governo.

O que muda no PSDB a partir de agora? Passamos a ser um partido que tem posições e toma decisões. Não queremos com isso fazer críticas ao passado. A história do PSDB precisa ser preservada e valorizada, mas não podemos viver da história. Temos de ser protagonistas da história.

E quais são as novas posições do partido? Ele deixa de ser um partido de centro-esquerda para ser um partido de centro, que dialoga com a esquerda e a direita mas se afasta dos extremos tanto de um lado quanto de outro. Será um partido que tem uma proposta liberal de economia, com menos Estado, pró-mercado, pró-desenvolvimento.

O Bolsa Escola, criado no governo de Fernando Henrique Cardoso, deu origem ao Bolsa Família, do governo Lula. Qual a posição sobre esse tipo de programa social? Não se trata de condenar o Bolsa Família, mas de estimular a geração de empregos e de oportunidades. Muito melhor que receber um favor através do Bolsa Família, que é uma renda limitada, embora útil para quem nada possui, é ter um emprego e, com isso, sua autonomia, sem nenhum grau de dependência. Não recomendamos nem estimulamos o encerramento dos programas sociais existentes, mas gradual­mente, à medida que se recupera a economia, você vai transferindo a seus beneficiários o direito à cidadania plena. A economia será o carro-­chefe do desenvolvimento social.

Esse liberalismo se estende ao terreno dos costumes? Deve ser estendido, sim. É preciso haver respeito pelo ser humano e pela pluralidade de religiões que o país apresenta, mas também aceitar a existência dos LGBTs, e jamais condenar alguém por ter feito uma opção sexual, por força de sua própria natureza. Mas tudo sem estimular crianças ou jovens a mudar sua opção sexual por causa de estímulos ou de situações que façam pressão sobre eles.

E temas mais complexos, como o aborto? Não discutimos isso no partido. Minha posição pessoal é por manter a legislação como está hoje.

Quando o partido assume o liberalismo, o que acontece com a social-­democracia que está no nome do partido? Vamos avaliar isso. Não será uma decisão de poucos, mas de muitos. Como? Por meio de uma pesquisa. É a forma mais moderna, mais eficiente para você conhecer o que a população de fato espera do PSDB. Será uma longa pesquisa coordenada pelo Bruno Araújo, o novo presidente do partido, feita por uma instituição de pesquisa séria, que vai avaliar nacionalmente o que a população pensa do PSDB. Acho que, se a opinião pública entender que o próprio nome deva mudar, o PSDB saberá ouvir a voz das ruas. E o PSDB — este é um ponto importante, diria até emblemático — vai deixar de ser analógico. Vai investir na linguagem, na comunicação digital. Vai falar sobre modernidade, juventude, em­preen­dedo­rismo, saúde, educação, utilizando os canais digitais, porque são mais rápidos, mais eficientes, mais verdadeiros, mais aquecidos que o analógico, que é lento e demorado.

“Muito melhor que o Bolsa Família é ter um emprego. Não recomendamos o encerramento dos programas sociais, mas a economia será o carro-chefe do desenvolvimento social”

Como tratar membros do partido envolvidos em suspeitas de corrupção, como Beto Richa e Aécio Neves? O PSDB acabou de produzir o seu código de ética e seu regime de compliance, ainda na gestão de Geraldo Alckmin como presidente. Pessoalmente, tenho uma opinião que não está expressa no código de ética: todos aqueles envolvidos em investigações já deflagradas pela Justiça deveriam pedir licença do PSDB. No período de licença, fazem a sua defesa plena e, se tiverem a inocência comprovada, retornam ao partido; se não, eles se afastam. Foi o que aconteceu no meu governo, quando surgiram denúncias contra os secretários Gilberto Kassab e Aloysio Nunes. Eu não os afastei: eles tiveram a grandeza de pedir licença. Mas essa é a minha posição, não a do partido.

Essa é uma política que depende só da decisão pessoal do acusado, não? Até o momento de ele se licenciar, sim. Agora, se ele não pede para se licenciar, eu defendo que o partido o expulse. Porque nesse caso ele demonstra que não tem grandeza de alma nem confiança na própria inocência. Não merece estar no PSDB.

Que lições o partido tem de tirar da derrota na última eleição presidencial? Lição da humildade e da sintonia. Faltou ouvir as ruas, ouvir a população. Quem acha que sua sabedoria é maior que a sabedoria popular paga por esse erro, e o PSDB pagou nas eleições de 2018. Não estou fulanizando nem dizendo que a culpa foi de A ou B, mas o partido errou.

O que deveria ter sido feito de forma diferente? Prefiro não julgar o passado. Quero olhar daqui para diante.

Que postura o partido deve ter em relação ao governo Bolsonaro? Uma postura de alinhamento não com o governo, mas com o Brasil. Devemos apoiar todos os programas, projetos e reformas que sejam bons para o país, independentemente de cargo, contrapartida ou outro benefício.

O senhor tem defendido a reforma da Previdência. Em que outros pontos há convergência entre as propostas do governo e as do novo PSDB, e em quais há divergência? Bem, o governo ainda não apresentou uma pauta econômica ampla. Até com­preen­do, pois não se pode tirar o foco primordial da Previdência. Mas a reforma tributária é uma pauta que o PSDB deve apoiar. Também devemos apoiar o pacto federativo, para descentralizar recursos e levá-los para os estados e os municípios, e a nova lei anticrime, seja do ministro Sergio Moro, do Alexandre de Mo­raes ou uma combinação entre ambas, pois precisamos de maior rigor na penalização de quem comete o crime comum ou o crime de cola­rinho-­branco. E seremos contra todas as pautas que forem extremadas, que não apresentarem equilíbrio ou senso de realidade.

O senhor sempre criticou o ex-presidente Lula, que hoje cumpre pena em Curitiba. Que papel futuro o senhor vê para ele na cena política brasileira? Nenhum. Que papel poderia ter na cena política um prisioneiro condenado a doze anos e que ainda tem de responder a mais sete processos? O papel do prisioneiro é cumprir sua pena. Esse é o papel que cabe ao Lula. Nada além disso.

“Que papel pode ter na cena política um prisioneiro condenado a doze anos e que ainda tem de responder a mais sete processos? O papel que cabe a Lula é cumprir sua pena. Nada além disso”

O senhor está processando Ciro Gomes por calúnia, injúria e difamação. Qual a sua avaliação da posição dele hoje? Não quero polemizar. Estou processando Ciro porque, além de inadequado, ele é malcriado. Você pode ter posições contrárias, pode até ter visões xiitas, mas não pode agredir as pessoas moralmente em nome da política. Se quiser fazer isso, terá de se defender na Justiça. Ciro Gomes já foi condenado em primeira instância e muito provavelmente será condenado em segunda. Ele faz parte da velha política — velha, inútil e arcaica. Ciro Gomes não é um caso de política, mas de psiquiatria.

Duas empresas automobilísticas, GM e Ford, anunciaram o fechamento de fábricas em São Paulo recentemente. Como foi o esforço para reverter essas decisões? Agi como deve agir um governador, em defesa da economia e do emprego em seu estado. O anúncio do fechamento de oito fábricas da GM no mundo foi feito em dezembro, pela CEO da empresa, em Detroit. Duas fábricas seriam fechadas em São Paulo, e 65 000 pessoas ficariam desempregadas. Fomos construir uma alternativa na primeira semana de governo que pudesse reconquistar a GM. Deu certo. Criamos o programa Incentivauto, que beneficia apenas empresas que estão em São Paulo — portanto não há nenhuma guerra fiscal. Foi a solução do entendimento e da credibilidade, em uma decisão compartilhada, com a participação inclusive de dois sindicatos que são vinculados à CUT e ao PT, cujos dirigentes entenderam que é mais importante defender empregos do que política partidária ou ideológica. E vamos ter o mesmo êxito com a Ford.

O senhor fala muito do combate ao crime. Quando se verão resultados? Já conseguimos resultados em cinco meses. Reduzimos os índices de criminalidade. Isso é prova de ação eficiente e de coordenação de funções de política pública na área de segurança. Nos quatro primeiros meses, foram apreendidas 52 toneladas de drogas, 42% a mais em comparação com o mesmo período do ano passado, e as prisões cresceram 5%, também em relação ao mesmo período de 2018. Em 34 dias de governo, colocamos 22 chefes do PCC em prisões federais, em isolamento. E depois colocamos mais três líderes no mesmo regime — são 25 hoje. Isso foi fruto de planejamento, de ação integrada com o Ministério da Justiça, incluindo o ministro Sergio Moro.

Há possibilidade de PSDB e PSL se aliarem em algumas cidades nas eleições municipais do ano que vem? É possível. Há pessoas de boa qualidade no PSL, como há no PP, no DEM. Aproximar essas pessoas dentro do mesmo campo faz parte do jogo democrático. Mas, em São Paulo, minha posição é definitiva: meu candidato se chama Bruno Covas.

É mais difícil ser prefeito ou governador? Prefeito. A demanda que recai sobre o prefeito é enorme e cotidiana. O prefeito, por causa dessa demanda, tem dificuldade de planejar e trabalhar de médio a longo prazo, como faz o governador. Por isso tenho um enorme respeito pelos prefeitos. Sou um governador municipalista por convicção.

O senhor é candidato à Presidência em 2022? Não é hora de discutir esse tema. É hora de governar.

E reeleição para governador? Não serei candidato à reeleição em hipótese alguma. Sou contra a reeleição. Historicamente, ela produziu mais deficiências do que bons resultados.