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Pré-sal, autossuficiência e biocombustíveis

Duarte Nogueira

O que temos visto até agora por parte dos governos de Lula e de Dilma na área de petróleo e biocombustíveis é muita saliva e pouca ação

A presidente Dilma Rousseff não pode alegar que desconhece o potencial do Brasil em relação à produção de petróleo e de biocombustíveis, tampouco os desafios que precisam ser enfrentados.
Afinal, foi ministra de Minas e Energia no governo petista anterior, conviveu com os representantes do setor sucroenergético, sujou o macacão laranja que usava no anúncio da autossuficiência de petróleo e explorou à exaustão na campanha eleitoral a descoberta do pré-sal.
Se realmente fôssemos autossuficientes na produção de petróleo, a Petrobras não precisaria importar gasolina para atender ao aumento da demanda interna.
Neste ano, a média diária de importação deve chegar a 30 mil barris/dia, contra 7.000 em 2010. O próprio presidente da estatal, Sérgio Gabrielli, afirmou que a autossuficiência em gasolina só virá em 2019.
A importação se faz necessária também porque o governo não foi capaz de ampliar a capacidade de refino. Três refinarias não saem do papel -Abreu de Lima, em Pernambuco, o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro e a Repar, no Paraná, todas envolvidas em denúncias de superfaturamento.
São obras que seguem o característico ritmo do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) -devagar quase parando.
A então candidata e o ex-presidente Lula passaram a campanha eleitoral de 2010 falando em pré-sal, como se os recursos de sua exploração fossem cair nos cofres públicos no dia seguinte. A realidade foi mostrada pelo ministro de Minas e Energia, Edison Lobão.
Quando perguntaram a ele se recursos do pré-sal poderiam ser usados para a saúde, o ministro disse o que Lula e Dilma sempre evitaram contar: “O pré-sal vai produzir daqui a sete, oito anos, portanto, não podemos ficar distribuindo recursos que hoje não existem”.
Ou seja, a autossuficiência no petróleo é uma farsa, e o pré-sal, tal como alardeado na campanha eleitoral, uma meia-verdade, já que será, sim, fonte importante de recursos, mas só daqui a alguns anos.
Por outro lado, os governos petistas cometem a proeza de colocar em risco uma certeza: a de que o Brasil pode se tornar um grande produtor mundial de biocombustíveis, especialmente de etanol.
O que vimos até agora por parte dos governos Lula e Dilma foi muita saliva e pouca ação.
O setor sucroenergético, que vinha fortemente alavancado, sofreu com a crise de 2008. Muitos projetos de expansão e construção de novas unidades industriais foram adiados ou retardados.
Os produtores independentes de cana, que passaram várias safras com o custo de produção superior à renda, postergaram a renovação dos canaviais. Resultado: a produtividade caiu e há necessidade de novas usinas para ampliar a produção, enquanto o consumo de etanol continua crescendo.
Sem uma política de apoio ao setor e com a demanda interna se expandindo fortemente, vamos perdendo competitividade e capacidade de exportação.
Se o governo tivesse planejamento estratégico, enxergaria essa dificuldade anos atrás e teria instrumentos para evitar esses problemas. Mas o governo Lula preferiu apenas tirar proveito dos bons momentos a fazer o que deveria ser feito.
Assim, mesmo com a tão propagada autossuficiência, com o famoso pré-sal e com o maior projeto de biocombustíveis do planeta, o brasileiro tem uma das gasolinas mais caras do mundo e paga cada vez mais pelo etanol nas bombas.
A presidente Dilma não pode alegar ignorância.