Início Saiu na imprensa PSDB é a sigla das privatizações, temos de defender’

PSDB é a sigla das privatizações, temos de defender’

Raphael Rocha
Diário do Grande ABC
13/05/2019 | 07:00

Aos 34 anos, Marco Vinholi personifica a guinada que o PSDB quer tomar após fracassar na corrida presidencial. Jovem, com discurso pró-economia liberal e defensor de faxina ética, o atual secretário de Desenvolvimento Regional do governo do Estado é, há uma semana, presidente do tucanato paulista. Aliado de primeira hora do governador João Doria, Vinholi terá de administrar as cizânias que a transição de perfil vai causar, endossando posicionamento mais à direita sem renegar o que a velha guarda do partido, em tom mais moderado, construiu.

Como o sr. recebeu a missão de ser presidente estadual do PSDB?
Foi um processo longo. Começamos de forma mais contundente em janeiro (a fazer a articulação). Fiz mais de 40 reuniões pelo Estado, inclusive no Grande ABC, dialogando com todas as lideranças. Conheço bastante a estrutura partidária. Será minha quarta executiva basicamente. Estive pela juventude do PSDB, por ser líder da bancada (na Assembleia Legislativa) e outra por ser integrante do conselho fiscal. Conheço bastante a dinâmica do PSDB. Entro nesse momento de novas lideranças ganhando protagonismo. Estamos incentivando a vinda de jovens e mulheres para o PSDB. Dentro desse bojo, com lideranças novas surgindo no PSDB no País todo, em São Paulo o partido entendeu que deveria dar oportunidade para sua juventude ocupar cargos de direção.

Qual o rumo que o PSDB vai adotar depois de resultado fraco na eleição nacional?
É momento de chamar o novo PSDB. Precisamos valorizar o legado, ter respeito por ele, mas ter coragem de olhar para frente, de trabalhar mais conectado com a sociedade, para olhar de forma contundente no que acredita a população brasileira. Precisamos fazer o combate interno da moral e ética, não só o PSDB, todos os partidos. O PSDB precisa levantar a bandeira do que representa o imaginário da população, porque foi construído ao longo dos anos, de privatizações, concessões, essa agenda liberal da economia. Desde o início do governo de Fernando Henrique Cardoso, passando por São Paulo, com as concessões de rodovias. O PSDB não foi contundente (na defesa) desse processo de parceria com a iniciativa privada, de privatizações, de ser o partido das privatizações do Brasil. O PSDB tem a responsabilidade de empunhar a bandeira e ocupar esse espaço na sociedade.

Esse foi o erro do PSDB na eleição nacional? De não defender as bandeiras da privatização?
Não quero olhar para trás e apontar erros das campanhas ou conjunturas. Tivemos grandes vitórias. Nossos candidatos tiveram papéis fundamentais no processo. O partido acumula, mesmo quando perde, experiências importantes. Achamos correto, e a sociedade assim espera, que o PSDB assuma essas bandeiras que levaram ao Brasil moderno. O governador João Doria defende de forma contundente. É nossa liderança principal do partido. Ele defende a economia liberal. Tem tudo a ver com o que a gente fez e pregou nos últimos anos. Estamos querendo deixar isso mais transparente.

Doria enfrentou eleição difícil, quase perdeu para Márcio França (PSB). Por que a diferença foi tão pequena (51,75% dos votos válidos contra 48,25%)?
Foi a primeira eleição que disputamos contra a máquina desde 1994. A máquina foi utilizada de forma muito pesada. Acompanhei, como parlamentar, líder da bancada, todos os passos da utilização da máquina de forma exacerbada para tentar eleger o ex-governador Márcio França. O que gerou dificuldade maior foi isso. Nosso candidato foi muito aguerrido, militância do PSDB atuou. Houve grande esforço do ex-governador Márcio França em puxar prefeitos, em tentar fazer com a classe política construção para garantir sua eleição. Ele não conseguiu. Fomos mais fortes com a nossa militância e, sobretudo, com as boas experiências que o povo de São Paulo entende que o PSDB entregou, como AMEs (Ambulatórios Médicos de Especialidades), Poupatempos, Lucy Montoro. Tudo isso com a postura do governador João Doria, pessoa inovadora, moderna e que gera esperança no povo.

O sr. falou da estratégia de Márcio França de atrair gente da classe política. O PSDB perdeu quadros. Outros tucanos, como o prefeito de Santos, Paulo Alexandre Barbosa, declarou voto no socialista. O sr. defendeu a expulsão do ex-governador Alberto Goldman. Como será com os demais tucanos?
Temos de avaliar cada um dos casos. Não podemos generalizar. Cada caso tem questão posta. A questão que você colocou, do Goldman, é completamente insanável. Ele foi usado de quinta coluna para fazer papel de oposição ao governador João Doria, não há qualquer possibilidade de manutenção dele. O prefeito de Santos teve suas questões, declarou publicamente ser contrário ao nosso candidato, está dentro da nossa comissão de ética e vamos tratar dentro dela. Os casos que forem apontados aqui, temos comissão de ética que será formada. Esperamos e vamos fazer a comissão funcionar para tratar os casos de forma objetiva e rápida.

Relatório da coordenação do PSDB no Grande ABC enalteceu o trabalho do prefeito de São Bernardo, Orlando Morando, na eleição de Doria e criticou a atuação de outras lideranças na região. Como esse caso será tratado na executiva estadual?
Não quero citar nominalmente nenhum deles. Mas o PSDB terá a mesma prática (de análise) no Estado inteiro. O prefeito Orlando Morando de fato foi parceiro de primeira hora, importante, temos de valorizar o trabalho dele ao longo do processo. O PSDB vai conduzir o Estado inteiro da mesma forma.
O sr. projetou eleger 200 prefeitos tucanos em 2020. No Grande ABC, em 2016, houve quatro vitoriosos, mas Gabriel Maranhão, prefeito de Rio Grande da Serra, deixou o partido. O que projetar para a região?
Queremos avançar no projeto no Grande ABC, tem dado certo, com políticas públicas que a população reconhece. Conseguimos retirar o cinturão vermelho, que era um espaço que o PT se agarrava, sempre buscava manutenção. Enfrentamos e vencemos ele (petismo) lá. O Grande ABC é prioridade do partido. Queremos eleger mais ainda do que elegemos em 2016. Vamos ter candidato nas sete cidades. Temos presença de um integrante do Grande ABC na executiva estadual justamente pela importância da região (Márcio Canuto, coordenador regional, está no bloco, assim como Carla Morando, deputada estadual e líder da bancada do PSDB na Assembleia). Algumas executivas não disponibilizavam essa vaga (ao Grande ABC). Achamos estratégico e recolocamos.

O sr. comentou que o PSDB errou em não assumir pautas liberais e esse vácuo foi preenchido por outras siglas, como PSL e Novo, que, em 2018, tiveram expressivo crescimento. O sr. teme que o PSDB possa perder quadros de peso para essas legendas?
Respeito todos os outros partidos, mas entendo que nenhum deles tem a condição que o PSDB tem hoje, um governo bem avaliado aqui em São Paulo, com figura política do porte do governador João Doria à frente desse processo. Temos mais de 180 prefeitos, filiamos novos na semana passada (retrasada), inclusive. Temos mais de 1.000 vereadores. PSDB vem forte, se preparando para eleições de 2020 e vamos ter candidatos mais competitivos para isso. Estimamos lançar mais de 600 candidatos. A chance é maior de prefeitos virem (para o PSDB) do que saírem (da sigla).

Na convenção, houve dissonância de discursos entre Alckmin e Doria. Como administrar o que parece ser visões diferentes sobre o futuro do PSDB?
Primeiro tenho de ressaltar a alegria de ter quadros desse calibre dentro do PSDB. Tem o nosso governador João Doria, maior liderança política do PSDB hoje. Tem o Geraldo Alckmin, mais tempo como governador (quatro mandatos), foi candidato a presidente. José Serra, senador. Estamos em partido de gente de opinião, de gente forte. É natural que cada um coloque suas opiniões. Para mim, não diverge muito. Se você pegar a fala principal, todos reconheceram o partido de centro com liberalidade da economia com olhar social. De usar o estado naquilo que é prioridade. Outras opiniões que cada um possa ter são naturais, fruto de diálogo interno e de partido forte, com expressão na sociedade.
Como o sr. pretende lidar com filiados acusados ou condenados em casos de corrupção?
Fundamental dentro do combate ético e moral é ter regras claras e cumpri-las. Falamos em projeto de compliance, que é modelo que as empresas adotam e que funcionou. O PSDB tem avançado nesse sentido. Há distanciamento da sociedade das estruturas partidárias, de modo geral. Partidos precisam se reinventar. PSDB está fazendo a lição de casa.

Dentro e fora do partido se viu pessoas culpando a inércia do PSDB sobre o futuro do hoje deputado federal Aécio Neves como fator a arranhar a imagem da sigla e afundar a candidatura presidencial. O sr. acredita nessa visão? Demorou muito a se tomar alguma posição?
O PSDB precisa fazer de forma objetiva o combate ético e moral. Não quero fulanizar. Mas é necessário dar essa resposta para a sociedade. A sociedade espera isso do PSDB. O PSDB do Mário Covas é o PSDB do combate pela ética e moral. Foi calcado nisso. Temos de nos reconectar nisso, com regras claras, objetivas.

Mas no caso específico do Aécio, o PSDB perdeu o timing de expulsá-lo ou investigá-lo?
Não quero fulanizar o Aécio nisso. Há várias situações do partido que precisam ser tratadas por essas regras. Não posso apontar o dedo para um e não para o outro, nem parecer que estou fazendo isso. Mas é evidente que precisamos avançar no combate ético e moral.

É mea-culpa por não ter tomado essa posição sobre a ética antes?
Sim. Precisamos nos modernizar, sim.

Como tem avaliado os governos dos do PSDB na região?
São boas gestões. Acompanhei no início do ano o esforço na questão das enchentes, a luta é grande, porque são problemas crônicos no Grande ABC. Houve esforço para conseguir o piscinão do Jaboticabal, obra custosa para o governo do Estado e o governador capitaneou para conseguir solucionar. Houve questão das fábricas da região (General Motors e Ford, que anunciaram saída da cidade; GM recuou, a Ford, não), com atuação do governador e dos prefeitos, para conseguir manter. Vejo o governador muito próximo do Grande ABC. As gestões têm boa avaliação pelo que acompanho.