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Bruno Covas: “Sem aumentar tarifa de ônibus não é possível entregar 12 CEUs”

O prefeito de São Paulo e candidato à reeleição luta contra um câncer enquanto tenta reerguer PSDB 
GIL ALESSI – EL PAÍS
O ano de 2020 será de muitas batalhas para o prefeito Bruno Covas. Candidato à reeleição, o tucano terá que reverter um quadro de baixa aprovação de sua gestão à frente de São Paulo —que completou 20 meses em janeiro. Soma-se a isso o fato de seu partido, o PSDB, ter sido um dos maiores derrotados nas eleições de 2018. “Não soubemos expor nossas ideias e não fizemos a lição de casa [afastando filiados envolvidos com corrupção]”, analisa, referindo-se ao caso do deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG), denunciado na Operação Lava Jato.
Se na arena política os desafios são imensos, a vida pessoal também reserva luta para o jovem político de 39 anos: Covas enfrenta um câncer na cárdia (área entre o esôfago e o estômago) e nos gânglios linfáticos, diagnosticado no final de outubro. “Não fico preocupado com o que eu vou poder fazer no Carnaval ou no meu aniversário em abril. Tenho que controlar a cabeça, não posso ter esse tipo de ansiedade”, diz. Com o cabelo ralo devido ao tratamento, o prefeito parece disposto e bem-humorado. Horas antes de se internar para mais uma sessão de quimioterapia —a sexta de oito previstas nesta etapa inicial do tratamento—, ele recebeu o EL PAÍS na tarde desta terça-feira na sede da Prefeitura.
Apesar do desejo de seu padrinho político, o governador João Doria, de tentar emplacar a deputada federal Joyce Hasselmann (PSL-SP) como vice de sua chapa, Covas minimiza a possibilidade: “Acho muito difícil que a gente consiga ter qualquer tipo de coligação formal seja com o PSL, que hoje ainda é o partido do presidente, ou com o PT. Difícil incluir essas legendas no arco de alianças”. Ele admite, no entanto, ter se encontrado com a parlamentar recentemente. “É cedo para falar em vice. Qualquer coisa nesse sentido pode melindrar os partidos que queremos atrair para nossa candidatura”.
Enquanto tenta não se indispor à direita, o prefeito afaga a esquerda, ao menos na área cultural. Ele tem aproveitado sua vitrine na maior cidade do país para criticar medidas autoritárias e episódios de censura no Governo federal. No final de janeiro, São Paulo abriga o Festival Verão Sem Censura, reunindo obras afetadas ou criticadas pelos ultraconservadores, em claro contraponto com o bolsonarismo: “Até reclamei com o Alê [Youssef, secretário de Cultura] porque falei que aqui as quatro estações tem que ser sem censura”, brinca.
ENTREVISTA
Pergunta. Sua gestão tem baixos índices de aprovação. Como superar isso em um ano eleitoral?
Resposta. Quando a gente governa, a gente governa fazendo aquilo que acha que é o certo. Não aquilo que é popular. É muito impopular aumentar tarifa de ônibus [a passagem subiu para 4,40 reais este ano]. Mas se não aumenta é preciso aumentar o subsídio [às empresas de transporte]. E aí, ao invés de terminar 12 CEUs, os hospitais da Brasilândia e de Parelheiros, você tem que financiar as empresas e concessionárias de ônibus. Não é popular você fazer a reforma da Previdência, mas ano passado a gente teve uma receita extra de 400 milhões de reais por conta da reforma da Previdência municipal. Precisamos enfrentar estes desafios, fazendo o que a gente acha que está certo. Um dia a população reconhece.
P. Você acha que sua baixa taxa de aprovação tem a ver com a austeridade fiscal da gestão?
R. Não tenha a menor dúvida.
P. Você acha que conseguiu deixar uma marca neste ano à frente da Prefeitura? Qual?
R. Espero deixar a marca daquilo que foi combinado com a população em 2016. Um Governo que aposta na parceria com o setor privado, já conseguimos assinar a concessão do Pacaembu, do mercado municipal de Santo Amaro e do primeiro lote de parques, dos qual o mais importante é o Ibirapuera. Estamos avançando agora com a concessão do serviço funerário e dos terminais de ônibus para poder focar naquilo que é o essencial, que é o social.
P. Acha que a população está satisfeita com o que vem sendo feito na área social?
R. Vamos bater recordes na entrega de creches, 85.000 vagas. Esta área da primeira infância [é forte na gestão], retomamos o programa Mãe Paulista… Enfim, é desestatizar para poder focar no social. Isso é o que foi combinado com a população em 2016, que o João [Dória] começou a fazer em 2017, e que a gente vem entregando e vai entregar até o final deste ano.
P. Não ter conseguido tirar o Parque Minhocão do papel é motivo de frustração para você?
R. Não tenha a menor dúvida. Muitas vezes uma obra acaba parando em órgãos de controle. Esse projeto ficou parado um ano no Tribunal de Justiça, e é algo que não será possível entregar nesta gestão. É algo, inclusive, que colocamos no programa de metas.
P. São Paulo teve um aumento no número de moradores de rua nos últimos anos. De quem é a culpa?
R. Depois de cinco, seis anos de recessão houve uma explosão no número de moradores de rua. Uma das heranças malditas que o PT nos deixa.
P. A culpa pelo aumento de moradores de rua é só da gestão do PT no Governo Federal?
R. Acho que sim. Ainda vivemos um problema de falta de crescimento econômico, falta de credibilidade internacional, e com as contas públicas desarrumadas. Se o governo federal tivesse que respeitar a lei de responsabilidade fiscal como municípios e Estados, não fecharia as contas, pois existe um déficit nominal cada vez maior, você tem uma relação dívida/PIB cada vez maior. Espero que o Governo possa reverter isso e voltar a crescer, não é porque não votei no Jair Bolsonaro que não torço para que o país volte a crescer.
P. As políticas públicas municipais são suficientes para atender a população em situação de rua?
R. A gente sempre pode fazer mais. E a gente espera poder fazer ainda mais. Aumentamos o número de pessoas acolhidas, de vagas ofertadas para a população em situação de rua, mas o número [de moradores de rua] explodiu. Isso significa que teremos que ampliar o número de consultórios na rua, ampliar ainda mais o serviço que é feito.
P. O que precisa mudar no sistema de atendimento a essa parcela da população?
R. Ofertar soluções e investir em uma gestão mais criativa. Hoje a gente paga para as empresas que fazem abordagem de morador em situação de rua algo em torno de 300 reais [por abordagem], independentemente se o agente conseguiu convencer a pessoa a ir para um abrigo ou não. Claro que isso precisa ser alterado. Podemos até continuar pagando por abordagem, mas precisamos recompensar e pagar ainda mais quando ele consegue convencer o morador [a ir para um abrigo].
P. Ano eleitoral tradicionalmente é um ano de entrega de obras. O que está previsto para a cidade em 2020?
R. Temos a requalificação do centro de São Paulo, Vale do Anhangabaú e Largo do Arouche, e espero que possamos resolver logo essa questão com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional para poder entregar o parque Augusta. Temos algumas obras como a ligação Norte-Lapa, e uma série de obras na área social, como 12 CEUs e os hospitais da Brasilândia e de Parelheiros. São 150 obras que já entregamos na área da saúde, e mais 150 que vamos iniciar este ano com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Além disso, 25.000 unidades habitacionais serão entregues até o fim desta gestão.
P. Você acha que seu avô se sentiria representado pelo PSDB de hoje, que por vezes flerta com uma direita extrema?
R. É difícil saber o que ele pensaria sobre o PSDB de hoje, até porque já se vão quase 19 anos do falecimento dele. Mas na essência [o partido] não é muito diferente.
P. Mas uma ala do PSDB parece ter dado uma guinada à direita, se aproximando de ideias mais autoritárias do presidente Bolsonaro…
R. Houve no ano passado uma grande polarização, e grande parte do partido acabou apoiando o Bolsonaro muito mais por falta de opção do que por seguir o discurso político dele. Não acredito que o partido em si tenha mudado seu direcionamento. Não vejo isso nos posicionamento das bancadas [parlamentares], por exemplo, em Brasília.
P. O João Doria chegou a usar o slogan “Bolsodoria” para se eleger ao Governo do Estado. Isso é algo que te constrange?
R. Eu não votei no Bolsonaro, deixei isso claro na eleição de 2018. Posso me arrepender do que eu faço, não do que eu não faço.
P. O PSDB foi um grande derrotado nas eleições de 2018. Como reverter isso este ano, de olho nas eleições presidenciais de 2020?
R. Acho que grande parte do mau desempenho do PSDB em 2018 foi por não conseguir externar o que pensa, deixar claro qual sua proposta, sua alternativa e sua forma de governar. Se a gente insistir nisso… Vejo um pouco o Bruno Araújo [Covas], preocupado com isso: defender o Plano Real [criado durante o Governo do presidente Fernando Henrique Cardoso], defender as desestatizações, as privatizações, carregar a bandeira daquilo que fez. E em segundo lugar, [perdemos] por não fazer a arrumação interna nos casos de corrupção que envolvem membros do PSDB.
Tenho vergonha de estar no partido que tem o Aécio Neves como deputado e como filiado
P. Você se refere ao deputado federal Aécio Neves?
R. Tenho vergonha de estar no partido que tem o Aécio Neves como deputado e como filiado. Não dá para apontar o dedo para o PT e para outros partidos se a gente não toma as providências quando aparece uma fita de um membro do PSDB pedindo dinheiro, como ocorreu no caso da delação da JBS [onde Aécio foi gravado pedindo um empréstimo]. Essas duas questões são essenciais para que a gente possa voltar a crescer e retomar a credibilidade com a população. Deixar claro o que pensamos e fazer a lição de casa ao não aceitar nenhum desvio ético.
P. Qual seu papel nisso?
R. Daqui o que posso fazer é continuar governando a cidade de São Paulo. Minha preocupação tem que ser com o crescimento futuro do PSDB. Mas existem instâncias partidárias e a bancada em Brasília, eles estão muito mais focados nisso. Daqui sigo me empenhando para que São Paulo seja uma boa vitrine de Governo do partido.
P. Como um político que se considera de centro, como você, conseguirá sobreviver em um contexto de alta polarização entre esquerda e direita?
R. É difícil. Durante o Governo do PT eu era neoliberal. Agora sou comunista. Apanho dos dois lados. No ano retrasado o resultado não foi positivo para os políticos que se apresentaram como de centro. Mas é o que eu acredito. Enfim, não adianta ser que nem biruta de aeroporto que muda de posição de acordo com o vento. Vou continuar defendendo o que acredito.
P. Qual eleitor você acha que terá mais dificuldade para atrair, o do Bolsonaro ou o do Lula?
R. Em uma eleição municipal, por mais que sejamos uma cidade como São Paulo, onde o resultado eleitoral é visto como tendo reflexos nacionais, o eleitor está muito mais preocupado com questões locais. Com a zeladoria da cidade, médico em posto de saúde, vagas em creche. Aqui é uma cidade que já elegeu de Luiza Erundina (PT) a Paulo Maluf (PP). Então as questões locais elas são muito mais preponderantes. Óbvio que há viés político, existe gente que vota sempre no candidato de determinado partido, mas acho que a questão local é mais forte do que em eleições gerais onde a ideologia acaba arrastando o eleitor.
P. Desde as eleições de 2018 você tem criticado abertamente o presidente Jair Bolsonaro e seus ministros. Pensa em baixar o tom para atrair o eleitor dele?
R. Veja, eu não faço [tanta] crítica, é muito mais responder às perguntas que vocês [jornalistas] me fazem. A preocupação do eleitor não é ter um prefeito que faça mais ou menos críticas ao Governo Federal, a preocupação é ter um prefeito que possa resolver os problemas da cidade.
Após anos de recessão houve uma explosão no número de moradores de rua. É uma herança maldita do PT
P. Mas fez uma série de críticas às declarações do staff dele, como por exemplo quando o ministro da Economia defendeu um novo AI5 e você falou em sair do hospital onde estava em tratamento para protestar…
R. É natural que às vezes o prefeito de São Paulo tenha que se colocar politicamente. Mas não acho que é com isso que a população está preocupada.
P. Como está sendo a experiência de lutar contra o câncer?
R. Está sendo uma experiência transformadora. Não sei se consigo me expressar de forma tão forte como o Gilberto [Dimenstein, jornalista que também enfrenta um câncer e escreveu sobre a experiência na Folha de S.Paulo], e analisar o quanto e o que mudou. Eu ainda estou no meio de uma turbulência para falar o que é um novo Bruno em um processo como esse. Para mim ainda é cedo pra afirmar algo assim. Mas eu fico muito impressionado com a solidariedade das pessoas. Ainda hoje fui almoçar em um shopping aqui ao lado e o pessoal veio me abordar, passar uma mensagem de carinho, demonstrar força. Isso é inacreditável, este carinho neste momento. E o quanto a gente encontra força sem nem saber de onde para enfrentar este desafio.