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O futuro de São Paulo está em jogo

Eudes Lima – ISTOÉ
A economia paulistana representa 10% do PIB brasileiro, liderando os avanços tecnológicos do País, mas seu desempenho é afetado pelos graves problemas sociais que persistem, sobretudo nas áreas da educação, transporte e moradia: 3 milhões ainda não têm uma casa decente para morar, as pessoas levam quatro horas para chegar ao trabalho e 22 mil crianças não têm creche. Essas questões terão que ser resolvidas pelo prefeito que será eleito, ou reeleito, em novembro. Nas próximas 4 páginas, os leitores de ISTOÉ saberão quais serão os impactos das eleições no processo de desenvolvimento da cidade e quem são os postulantes ao cargo do atual prefeito Bruno Covas.
Atrês meses das eleições que escolherão o novo prefeito da maior cidade da América Latina, pelo menos doze candidatos já se habilitaram a disputar a cadeira ocupada atualmente pelo prefeito Bruno Covas. Contrariando uma tradição na política paulistana dos últimos 20 anos, desta vez não haverá a polarização entre o PSDB e PT, que se revezam no comando da capital paulista desde 2004. Afinal, por mais que o tucano Bruno Covas lidere as pesquisas de intenção de votos com 22,8%, segundo o Instituto Paraná Pesquisas, o candidato do PT, Jilmar Tatto, com apenas 1,9% das intenções de votos, não dá demonstrações de que venha a ser páreo nesta disputa. Até porque as esquerdas este ano disputarão a Prefeitura com mais quatro candidatos. Além de Tatto, estarão na corrida eleitoral Márcio França (PSB), com 7,7%, Guilherme Boulos (PSOL), com 5,5%, Marta Suplicy (Solidariedade), com 6,9%, e Orlando Silva (PCdoB), com 0,6%. A divisão de votos entre a esquerda será grande, e deverá favorecer o tucano, que atua na centro-esquerda.
O mais provável, segundo indicam as pesquisas, é que Covas dispute a ida para o segundo turno contra dois candidatos de centro-direita: Celso Russomanno (Republicanos), que está em segundo na disputa, com 20%, e Paulo Skaf (MDB), que está na terceira posição com 10.4%. Covas conta com o apoio da máquina estadual do governador João Doria (PSDB) e com o espólio eleitoral do seu avô Mário Covas, falecido em 2001, mas que ainda goza de grande prestígio na cidade, onde foi prefeito de 1983 a 1986, além de governador por dois mandatos (1995-2001).
Consciente de que a eleição de seu pupilo em São Paulo é crucial para postular uma candidatura a presidente da República em 2022, Doria está fazendo de tudo para reeleger Covas. Comenta-se nos bastidores do Palácio dos Bandeirantes que ele faz um grande esforço para consolidar uma aliança de Bruno com Celso Russomanno, que seria o vice na chapa encabeçada pelo tucano. Russomanno, ligado à Igreja Universal, pode aceitar o acordo, pois nas últimas duas disputas para a Prefeitura ele saiu liderando, mas depois ficou para trás, sem gás para chegar sequer ao segundo turno. Nesse caso, a chapa de Bruno se fortaleceria sobremaneira. Doria chegou a procurar a deputada Joice Hasselmann (PSL) para ser a vice de Bruno, mas ela preferiu manter sua candidatura solo, mesmo sem grandes chances nas pesquisas eleitorais (atualmente está com 1,3% das intenções de voto).
Ela espera crescer nas pesquisas contando com a expressiva votação que fez para deputada federal em 2018, quando superou um milhão de votos.
É bem verdade que essa votação extraordinária foi conquistada pelo fato de a deputada contar, à época, com o apoio de Jair Bolsonaro, eleito com um expressivo número de votos.Desta vez, Joice rompeu com Bolsonaro, depois que o presidente a destituiu do cargo de líder do governo no Congresso. Desde então, os filhos do presidente passaram a agredi-la frequentemente nas redes sociais, chamando-a de “pepa”. Graças a isso, Joice os denunciou à CPMI das Fake News e abriu uma guerra contra os Bolsonaros em São Paulo. Esse movimento deverá, inclusive, enfraquecer o bolsonarismo na disputa pela prefeitura paulistana.
O presidente Bolsonaro já disse que não pretende se envolver na campanha eleitoral deste ano, ficando à margem das eleições municipais em todo o Brasil. É certo que se Bolsonaro apoiar alguém em São Paulo não será Joice, mas provavelmente Paulo Skaf (MDB), presidente da Fiesp. O empresário Skaf está fazendo de tudo para se aproximar do presidente, sendo um dos responsáveis pela formação do Aliança pelo Brasil, a nova legenda que o clã Bolsonaro está criando para disputar a reeleição em 2022. Assim, em São Paulo também não será reeditado, este ano,
o embate entre petistas e bolsonaristas, como aconteceu em 2018.
 
A locomotiva perde força
Qualquer que seja o prefeito eleito em novembro, ele terá à sua disposição o terceiro maior orçamento do País, atrás apenas da União e do governo do Estado de São Paulo. Os R$ 70 bilhões que a Prefeitura arrecada anualmente, porém, não são suficientes para resolver todos os problemas de uma das maiores cidades do mundo em termos de população (12 milhões de habitantes). Embora seja responsável por cerca de 10% de todo o PIB brasileiro (R$ 700 bilhões por ano, segundo dados do IBGE) e represente o que há de mais avançado no País em termos de tecnologia e modernidade, a metrópole ainda apresenta problemas crônicos insuperáveis. Mais de 3 milhões de habitantes habitam favelas e palafitas, e 24 mil pessoas moram nas ruas (eram 18 mil quando Covas assumiu, em 2018).
Apesar de a Prefeitura prometer entregar este ano 25 mil novas moradias, pelo menos um milhão de pessoas estão inscritas na fila para a obtenção de uma casa popular. O baiano Toni Palma, que mora em São Paulo desde 2014, é um dos que esperam uma dessas habitações. “O aluguel é caro e o jeito foi morar numa barraca na rua”, disse ele. Por isso mesmo, 105.500 famílias contam com a regularização fundiária dos terrenos que ocupam ilegalmente hoje, sobretudo em áreas de mananciais, para poderem ter estabilidade residencial. Essa habitação irregular, inclusive, é um dos fatores que levam à poluição de rios e córregos da cidade.
O prefeito Bruno Covas, contudo, conta com a nova Lei de Saneamento Básico para promover investimentos privados que garantam que todos os moradores da cidade tenham acesso à água potável e esgoto tratado na porta de suas casas.
 
Vidas importam
Arrumar mais dinheiro para o atendimento de todas as necessidades do cidadão, portanto, é uma necessidade do gestor público. Por isso mesmo, o tucano Bruno Covas propôs privatizar tudo o que fosse possível. O Mercado de Santo Amaro foi concedido ao setor privado, enquanto o Mercadão do Centro e o Mercado Kinjo Yamato aguardam processo de licitação. O Pacaembu (R$ 115 milhões) e o Parque Ibirapuera (R$ 70 milhões) estão sob concessão por 35 anos. O Anhembi e o Autódromo de Interlargos aguardam interessados na aquisição, mas já estão disponíveis para privatização. A atual administração espera arrecadar algo próximo a R$ 2,5 bilhões. O dinheiro será reinvestido em Saúde e Educação.
Apesar dos escassos recursos, São Paulo foi a única capital em que o sistema de saúde não entrou em colapso na pandemia. A administração municipal acreditou nos médicos e, por isso, fez o adequado enfrentamento à Covid-19. Contratou mais de 9 mil profissionais de saúde. A gestão afirma que a vida das pessoas foi o foco principal. Isso fez uma diferença enorme na cidade, acostumada a grandes aglomerações. A quarentena funcionou bem no início, em que a Covid-19 atacou com maior intensidade. O secretário de Saúde, Edson Aparecido, destacou que não houve falta de UTIs nos hospitais. “Ninguém morreu por falta de respirador na capital paulista”, explica o secretário. O orçamento para Saúde é de R$ 12 bilhões e houve um acréscimo de mais R$ 1 bilhão de investimento estadual e federal. Foram abertos 1.300 leitos e inaugurados cinco novos hospitais, além de estar prevista a instalação de outros dois até o fim do ano. O vereador Toninho Vespoli (PSOL) diz que “a pandemia mostrou como o Estado e os serviços públicos de saúde são essenciais para nossa cidade”. O sistema público de Saúde passou no teste fogo.
Outro problema grave na metrópole é o transporte. Um trabalhador que reside na zona Leste leva em torno de quatro horas para ir e voltar do trabalho no centro da cidade, tendo que tomar vários ônibus superlotados e precários, por mais que a Prefeitura tenha adquirido nos últimos meses um total de 5.650 novos coletivos. A promessa de não aumentar a tarifa de ônibus não foi cumprida, e hoje está em R$ 4,40. O investimento em ciclovias também não foi dinamizado, embora a gestão prometa implantar 173 quilômetros até o fim do ano. O ciclista e co-fundador da semexe.com, Gabriel Novais Pimenta, diz que “a malha cicloviária está praticamente estagnada”. Segundo ele, são 500 quilômetros de ciclovias, “mas com grande falta de sinalização e manutenção”.
A vereadora Soninha Francine sente também “a falta de mais passarelas sobre avenidas expressas e sobre os rios, para pedestres e para os ciclistas”.
Mas para quem vai trabalhar de carro, os transtornos não são menores. Congestionamentos intensos marcam a vida dos proprietários dos quase 9 milhões de automóveis que enchem as esburacadas ruas da cidade. Por isso mesmo, a Prefeitura informa estar investindo R$ 1,4 bilhão na revitalização de calçadas e repavimentação das vias urbanas.
Questões humanitárias atraem cada vez mais atenção e São Paulo caminhou bem nesse setor, embora a cidade ainda seja campeã em desigualdades sociais. A Prefeitura até criou o Centro Cultural Afro e tem apoiado medidas de combate ao racismo, mas a população LGBT ainda não viu o número de Centros de Referência ampliados.
A cidade, contudo, aumentou o número de bolsas no programa “Transcidadania” que auxilia na inclusão social de 240 pessoas, com o valor de R$ 1.097,25 mensais.
Os imigrantes e refugiados contam com um Centro de Referência móvel, além da sede na Bela Vista. As mulheres têm um espaço que centraliza serviços de acolhimento, consultas ao Ministério Público e atendimentos jurídicos. Nessa área, algumas das ações são mais de posicionamento político do que propriamente de investimentos, mas mostram claramente que o diálogo político é assertivo.
A educação é um outro setor problemático. Zerar o déficit nas creches ainda não foi possível e a fila de espera é inferior a 22 mil crianças, embora o atual prefeito tenha criado 57 mil novas vagas, representando um grande avanço nessa área. No ensino fundamental, a Prefeitura enviou o material de estudo pelo correio para suprir o ensino à distância. Um importante processo de digitalização está em curso. Foram adquiridos 16.800 notebooks para as escolas de ensino fundamental. Como se percebe, São Paulo tem grandes desafios a serem equacionados pelo futuro prefeito.