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O papel do Estado frente à sindemia

Por Marco Vinholi

Nos últimos meses, enfrentamos um perigo desconhecido, um vírus que se espalhou pelo mundo, inicialmente identificado como causador de uma forte gripe e depois considerado pelos cientistas um dos vírus mais perigosos para a saúde humana. Ao longo desse período, cientistas se debruçaram para entender sua forma de contágio, disseminação e, principalmente, desenvolver a tão esperada vacina. Isolamento social, toque de recolher, lockdown foram estabelecidos por parte dos governos diante da maior ou menor gravidade aferida. Agora chegamos ao ponto de nos preparar para o depois.

Recentemente, os cientistas passaram a classificar a covid-19 como uma sindemia e não mais como uma pandemia. Sindemia é um termo criado em 1990 pelo antropólogo norte-americano Merril Singer, a partir da combinação das palavras sinergia e pandemia, para explicar que determinada doença pode causar danos muito mais extensos, dependendo das condições de saúde e socioambientais da pessoa infectada Na ocasião, ele estudava os impactos do consumo de drogas na população e percebeu que seus efeitos, aliados a outras doenças preexistentes ou condições socioambientais precárias, causavam danos muito mais graves. Ou seja, sindemia se caracteriza por provocar danos mais extensos do que a simples combinação de uma ou mais doenças.

No caso da covid-19, estudos mostram que os pacientes acometidos pelo vírus que apresentavam doenças preexistentes, como diabetes, hipertensão, distúrbios coronários ou obesidade, tiveram danos bem mais agudos em sua saúde e estão entre os que mais chegaram a óbito. Além disso, a condição socioambiental e a renda também são fatores apontados como agravantes para as consequências da doença. Foi diante desse contexto que o editor da revista científica britânica “The Lancet”, Richard Horton, classificou a covid-19 como sindemia.

Esse fenômeno deve acender uma luz de alerta aos governantes. Se os cientistas estão empenhados em desenvolver vacinas e impedir a escalada crescente de contágio, cabe aos dirigentes públicos criar condições para que sejam reduzidos os impactos causados pela covid-19. A prevenção a doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), hoje responsáveis por 72% de mortes no país, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é algo que podemos agora abraçar com mais força.

O Estado de São Paulo já dá seus passos nesse sentido. Por meio do Programa Parcerias Municipais, a Secretaria de Desenvolvimento Regional firmou um acordo de cooperação técnica com a ACT Promoção da Saúde, visando à capacitação de gestores públicos para a prevenção de doenças crônicas não transmissíveis. (DCNTs). São mil vagas gratuitas de um curso EAD (Ensino à Distância) sobre apoio público à política específica (“advocacy”) de prevenção e controle de DCNTs, com a proposta de possibilitar aos municípios a adoção de políticas públicas eficazes em curto, médio e longo prazo. As aulas terão início no mês de março de 2021, quando os novos governos municipais já estiverem estruturados.

Essa foi a primeira iniciativa junto ao terceiro setor do Programa Parcerias, criado em 2019 com o objetivo de unir esforços entre Estado e municípios paulistas para reduzir as desigualdades regionais em três áreas prioritárias – educação, saúde e segurança. Muitos outros acordos serão firmados para contribuir para a redução das desigualdades nas diversas áreas. O programa está em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 (metas da ONU) e se apresenta completamente alinhado à proposta de impedir que a covid-19 tenha ambiente favorável à sua disseminação.

Esse é o papel que devemos assumir. É responsabilidade do Estado proporcionar condições para que seus cidadãos tenham acesso à saúde adequada e uma vida digna.

*Marco Vinholi é secretário de Desenvolvimento Regional do Estado de São Paulo e presidente estadual do PSDB-SP